sábado, 29 de outubro de 2011

Comercial de Margarina

Há quem sonhe com a família perfeita. Mãe e pai bonitos, crianças lindas, todos sorridentes e bem vestidos sentados ao redor da mesa do café-da-manhã. A típica família comercial-de-margarina, que por anos foi vendida em horário nobre diretamente da televisão para o sofá da nossa casa.

Sua família se parece com isso? É, a minha também não.

Muito se fala sobre a idealização da mulher perfeita pela mídia, mas ninguém parece pensar muito nos efeitos que idealizar a família perfeita podem causar. "Ah, mas todo mundo sabe que aquelas famílias nos comerciais são de mentirinha". Bom, pensando assim, todo mundo sabe que aquelas mulheres esculturais também são de mentirinha (em alguns casos, literalmente: a Beyoncé, por exemplo, já confessou que usa duas meia-calças para esconder a celulite durante os shows).

Não vou querer dar uma de especialista de Fantástico e falar sobre todos os males que vender um padrão de felicidade e normalidade pode provocar na cabeça das pessoas. Mas não me surpreende nem um pouco quando vejo pessoas reclamando de suas famílias que, apesar de não serem as famílias sorridentes de comercial de margarina, são muito bem ajustadas e felizes.

Claro que existem - e muitas - famílias com problemas sérios. Tenho contato com várias pessoas vindas de família assim. Por isso não é difícil identificar quando alguém vem com reclamações vazias.

Digo sempre que sou privilegiada. Venho de uma família que se aproxima ao máximo que a realidade permite de um comercial de margarina. Pai e mãe casados há quase 25 anos, felizes. Nunca presenciei uma briga entre eles - no máximo discussõezinhas bestas. Ninguém na família jamais teve problemas com drogas, ninguém engravidou com 14 anos de idade e nunca ninguém passou fome. Não há nenhuma vítima de violência grave e ninguém próximo morreu antes dos 60 anos de idade.

Temos nossos problemas? Claro. Eu e minha irmã por pouco não nos matamos na infância. Meus pais não me entendiam durante minha adolescência (e não entendem minha irmã agora). Minha mãe e minha avó lutaram contra a depressão durante longos anos de suas vidas. Volta e meia o dinheiro acaba e ficamos na pindaíba. Às vezes falta paciência e brigas acontecem.

Agora imaginem se eu fizesse de tudo isso o inferno da minha vida. "Oh, não posso ser feliz porque minha mãe tem depressão" ou "Oh, meu Deus, não temos dinheiro para ir ao cinema esse mês". É isso o que vejo acontecendo. Várias e várias pessoas reclamando de problemas naturais da convivência em família e sociedade. Pessoas que não se conformam em não viverem num comercial de margarina transformando garoa em tempestade só para terem do que reclamar. As mesmas pessoas que olham a foto da Gisele Bündchen na capa da revista e reclamam por não terem o corpo como o dela - mesmo atraindo olhares nas ruas ainda assim. Porque algumas pessoas precisam ter do que reclamar.

A essas pessoas, apenas sugiro que gastem tanta vontade de reclamar com algo mais útil. Fundem associações de amparo a pessoas com problemas reais, organizem passeatas contra o governo. E se ainda assim precisarem seguir um modelo de família perfeita, sugiro que levem seus horizontes um pouco mais além dos comerciais de margarina. Família feliz é aquela que tem sim seus problemas, suas diferenças e suas peculiaridades, mas que estará sempre lá quando você precisar dela.

A família mais feliz do mundo.

Deixo então essa pergunta - para a qual não espero realmente resposta. As coisas que você reclama da sua família são realmente problemas ou são apenas sua maneira de saciar a vontade de reclamar?

1 comentários:

Gica disse...

Tati, já leu o livro do Oliviero Toscani, o italiano que foi fotógrafo da United Colors of Benetton de 1982 a 2000, "A publicidade é um cadáver que nos sorri"? O primeiro capítulo é um primor de ironia e acidez a respeito desses comerciais tão doces, suaves e utópicos. Lembrei-me dele logo quando vi o título do texto. Se nunca leu, corra atrás. Acho maravilhoso. :3

Quanto a nossa tendência reclamona, não sei se posso falar sobre ela com clareza, já que me encontro inserida nessa cultura. Parece ser até hereditário, assim como o pensamento derrotista e o medo de obter algum sucesso.